quinta-feira, 9 de junho de 2011

Para aqueles que fazem a história

Faltam três anos para o centenário do município de Foz do Iguaçu, noventa e sete anos de disputas, conflitos e exploração. A cidade cresce, ocupa os espaços, forjam novas ruas, novas praças, novas lojas. Sobre tijolos, sobre madeira, sobre papelão, cobertas de telhas de barro, coberta de lonas, casas, barracos, mansões, protegem os moradores do sol, da chuva, das mudanças do tempo, das mudanças do vento.

As paredes que separam o social do natural e que dividem os lugares e os lares também explicitam os limites da cidadania, da pobreza e da riqueza. Quando o processo de colonização do oeste paranaense levou consigo as regras do capital, plasmou um mundo de fronteiras e definiu um projeto de expansão excludente sustentado na exploração de uma força produtiva que constantemente é esquecida quando a história da cidade é narrada.

O pioneirismo das famílias empreendedoras, que exploram os recursos naturais existentes na região, é apresentado como sinal de bravura e ousadia, mas o suor daqueles que cortavam as árvores e serviam como força motriz de modelo extrator não é lembrado. Quem foram as Marias, Josés e Joãos que construíram as casas, que abriam as ruas, que ferviam a água do chimarrão? Onde estão os monumentos e as homenagens para aqueles que de fato construíram Foz do Iguaçu, os trabalhadores?

Celebramos a grandeza de nossa usina, as belezas de nossa natureza, o dinamismo de nossas fronteiras, celebramos os barrageiros que povoaram nossa terra, os piranhas que recebem nossos visitantes e os inúmeros trabalhadores da fronteira que movimentam a economia local e sustentam a economia formal de uma cidade construída e sustentada pelo exploração violenta do trabalhador, daquele que não controla suas horas, o seu esforço, que depende das políticas daqueles que elaboram políticas para continuarem unicamente fazendo políticas.

A história de Foz do Iguaçu é a história de seu povo, que trabalha e busca a sobrevivência dentro das poucas possibilidades existentes. Que busca e usa da criatividade e da flexibilidade para tirar de suas particularidades regionais os seus meios de vida e de crescimento. E na labuta diária, nas lutas e conflitos, na busca pela sobrevivência, desenha os traços que definem a cidade, o cotidiano que vivemos. A história de Foz é a história de seu povo. Povo que precisa se reconhecer como protagonista de um projeto de mudança.  


A domesticação do trabalhador

Indignação é a palavra que resume o sentimento de qualquer ser humano critico que teve o prazer, ou melhor, o desprazer ao assistir uma das séries das reportagens sobre o Mercado de Trabalho exibida no Jornal Hoje dia 06/06 da nossa querida, ilustríssima Rede Globo (só pra variar).
           
A reportagem inicia falando sobre os diferentes tipos de chefes: mal humorados, manipuladores e por aí vai... Assim o objetivo principal de toda essa “análise” é ensinar o empregado em como lidar com seus chefes, respeitando-os acima de tudo. Nesse sentido, é visivelmente clara a idéia de domesticação do trabalhador encontrada no cotidiano das relações capitalistas de exploração do trabalho, e como se não bastasse, essa idéia vem sendo reforçada pela mídia de modo escrachado.
           
A sociedade atual, conhecida como a “sociedade do trabalho”, na qual, é o centro da vida social de todos os indivíduos, se constitui de uma massa de trabalhadores domesticados, que não se reconhecem como sujeitos; quando uma de suas principais características é exatamente a idéia de obediência e não contestação, uma vez que, o sistema capitalista impõe ao trabalhador a necessidade de trabalhar para que se possa ao menos subsistir.

Nesse sentido, o trabalhador manipulado se vê num beco sem saída: “Preciso trabalhar porque preciso comer, então tenho que aceitar mesmo não concordando com algumas coisas“, ou seja, a domesticação do trabalhador vai acontecendo de forma gradual e intrínseca na sociedade, exemplo disso são essas reportagens ridículas que a grande mídia manipuladora transmite, reforçando cada vez mais esse discurso de “bom empregado”, que nada mais é, do que a alienação do trabalhador.
           
Durante a reportagem é feito o seguinte comentário: “O chefe ideal é o chefe participativo. Ele ouve as pessoas, aceita sugestões, argumenta, se posiciona, mas ao mesmo tempo dá oportunidades”, ou ainda "No sucesso somos todos ganhadores e no fracasso e no erro, todos perdemos, toda equipe, toda a empresa perdeu”, declara a especialista.

Como assim? Esse modelo de chefe ideal não existe e nunca irá existir! No sistema capitalista defende-se a idéia de formação da personalidade humana através do trabalho, que diga-se de passagem é trabalho forçado e alienado. Desse modo esse modelo de chefe participativo, que dá oportunidades e aceita sugestões, exposto na reportagem, é incoerente à ideologia do capital. E, se de alguma maneira, algumas ações políticas empresariais demonstram algum caráter humanitário, trata-se simplesmente daquela bela expressão que já discutimos aqui no Movimento Fronteira Zero: A Flexibilização das leis trabalhistas, que nada mais é, do que a idéia de crescimento econômico da empresa junto ao seu colaborador. Sim, colaborador é como atualmente é chamado o trabalhador. Que bonitinho... Agora o trabalhador tem participação no crescimento da empresa! É claro que sim, sabemos que o trabalhador participa e muito deste crescimento, com sua força de trabalho, mais valia e “bom comportamento”...


terça-feira, 7 de junho de 2011

“Têm pacientes aguardando há mais de 4 anos”

A frase acima estampa uma das faixas produzidas pela população de Foz do Iguaçu, exposta na XI Conferência Municipal de Saúde. A total insatisfação com o serviço público de saúde é visualizada nos protestos da população, que participou do evento através de falas, depoimentos, cartazes, faixas e Manifestos impressos. O Centro de Direitos Humanos e Memória Popular – CDHMP de Foz elaborou um Manifesto que foi distribuído durante a conferência que começou no período matutino da última sexta-feira dia 03, e foi até as 19 horas do sábado, após eleição dos Delegados para a X Conferência Estadual de Saúde.
A Humanização do sistema de saúde deve ser a base para construção de políticas públicas que discutam essa problemática na sociedade, uma vez que, saúde deve ser compreendida, no mínimo, como um direito humano. Nessa perspectiva o CDHMP propôs a discussão durante a Conferência, registrada também em material distribuído.

Click aqui para ler: Manifesto da Saúde

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Manifestação Artística

Diário
São 5:45 da manhã o despertador toca
Pelas frestas da madeira sinto o vento passar
Chaleira no fogo, lavo a cara para mais um dia começar
Mesa pronta, café eu vou tomar
Pão com margarina eu vou comer pra sustentar
Não posso me atrasar, eu preciso é trabalhar.

O ônibus no ponto eu vou pegar, mais meia hora eu posso descansar
É tanta gente não consigo nem mais respirar
Patrão está na espera de quem não chegar
Bater o ponto sem pestanejar
Começo a trabalhar
Faço parte da máquina nem sei mais por onde começar.

Meio dia o sinal toca é hora de parar
Abro a marmita dá até desgosto de olhar
Como com vontade e sem me deliciar
Nem vejo a hora passar
Sinal toca de novo, mais 6 horas de pavor
No rosto sempre um olhar de horror.

Sigo sem saber ainda quem eu sou
Não posso parar o patrão ta olhando
Mais um braço da máquina que sou
Devo continuar o dia não pode parar
Está chegando o fim falta pouco
Mais uma vez a sirene toca agora acabou.

A noite cai, a minha casa está lá
Telhado frágil, vigas fracas, chão gelado
Geladeira falta o que comer
Durmo com fome e não sei o por quê
Trabalho pra quem? Trabalho pra quê?


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Agenda Cultural Alternativa



Casulo Rock Bar apresenta:
Noite do Rock n´ Roll
Moloko
Pneumonia
Mil Reis

Data: 04/06/2011
Horário: 23:00 horas
Local: Casulo Rock Bar
Entrada: R$: 8,00

Cinema Aberto apresenta:
 “Uma Cidade Sem Passado” – (Das Schreckliche Mädchen)
Diretor: Michael Verhoeven – Ano: 1990 – Alemanha.

Uma cidade sem passado (Das Schreckliche Mädchen) é um filme alemão lançado em 1990 e tem direção de Michael Verhoven. O filme, baseado em fatos reais conta a história da jovem estudante alemã Sonia Rosenberger (Lena Stolze), que após ganhar um concurso de redações recebe uma proposta para participar de uma nova competição e para isso, deve escolher entre duas temáticas: Liberdade de expressão na Europa ou minha cidade natal durante o III Reich. Estimulada pelas histórias que ouvia desde criança, Sonia decide mostrar como a cidade e principalmente a Igreja se mantiveram íntegras durante o período do III Reich.


Data: 4 de junho de 2011 [domingo]
Horário: 19 horas
Entrada Livre
Local: Teatro Barracão (Praça da Bíblia)
Visite o blog Cinema Aberto

Feirinha da JK
Data: Todos os domingos
Local: Avenida JK, em frente à agência da Caixa Econômica Federal
Horário: 8h às 12h.

Feirinha da Praça
Data: Todos os sábados e domingos
Local: Avenida Rep. Argentina, em frente ao Teatro Barracão
Horário: 8h às 12h.

Cine Cataratas
Como Você Sabe?
Gênero: Comédia Romântica
Classificação: 10 anos
Legendado 
Duração: 2h. 00min.
Horários: Diariamente: 21:20h.

Rio
Gênero:Animação
Classificação: Livre
Dublado
Duração: 1h. 40min.
Horários: Diariamente: 15:20h, 17:20h e 19:20h.


Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas (3D)
Gênero: Ação/Aventura
Classificação: 12 anos
Legendado
Duração: 2h. 19min.
Horários: Quarta, Sábado e Domingo: 13:20h, 16:05, 18:50h e 21:35h / Segunda, Terça, Quinta e Sexta: 15:00h, 17:45h e 20:30h.


Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Legendado
Duração: 2h. 14min.
Horários: Quarta, Sábado e Domingo: 13:40h, 16:20h, 19:10 e 21:50h / Segunda, Terça, Quinta e Sexta: 16:20h, 19:10h e 21:50h.


X-Men Primeira Classe
Gênero: Ação/Ficção/Drama/Suspense
Classificação: 12 anos
Legendado
Duração: 2h. 12min.
Horários: Quarta, Sábado e Domingo: 13:55h, 16:30h, 19:10h e 21:50h / Segunda, Terça, Quinta e Sexta: 16:30h, 19:10h e 21:50

Cine Boulevard
Se beber, não case! Parte 2
Gênero: Romântica
Classificação: 16 anos
Legendado
Duração: 1h. 42min.
Horários: Segunda a Sexta: 17:50h, 20:00h e 22:10h / Sábado e Domingo: 15:40h, 17:50h, 20:00h e 22:10h.

Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Legendado
Duração: 2h. 14min.
Horários: Diariamente: 17:00h, 19:40h e 22:20h.


Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas
Gênero: Ação/Aventura
Classificação: 12 anos
Legendado
Duração: 2h. 19min.
Horários: Diariamente: 16:20h, 19:10h e 22:00h.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Milhares marcham pela liberdade em São Paulo

Mais de 5 mil pessoas participam de marcha contra a repressão e pela liberdade de expressão no sábado, 28 de maio, passando por cima de censura do TJ.
Por Gabriela Moncau
Caros Amigos
Cerca de 5 mil pessoas se reuniram na Av. Paulista no dia 28 de maio para protestar contra a violência policial e pela liberdade de expressão. Artistas, organizados, independentes, feministas, negros, homossexuais, palhaços, maconheiros, escritores, antiproibicionistas, estudantes, trabalhadores, bicicleteiros, professores, políticos, anarquistas, comunistas. A lista dos que foram às ruas diante da constatação de que a liberdade está cada vez mais escancaradamente sendo privada da população é extensa. 

O estopim foi a violenta repressão policial na Marcha da Maconha de São Paulo, dia 21 de maio, que diante de uma liminar assinada pelo desembargador Teodomiro Mendez, teve sua realização proibida. Mesmo censurando os cartazes e mudando o caráter da marcha para liberdade de expressão, os manifestantes foram duramente reprimidos pela Tropa de Choque da Polícia Militar e pela Guarda Civil Metropolitana. Saldo final? Muitos feridos, 9 detidos, dois tenentes afastados pelo Geraldo Alckmin que teve de dar alguma explicação pública diante da indignação da população em geral. Mas mais que isso: uma revolta que se espalhou e encontrou eco em uma série de coletivos, movimentos e pessoas que também não mais aguentam a naturalização da porrada por parte do Estado a cada vez que a sociedade civil ocupa os espaços públicos para se manifestar a respeito de qualquer assunto. Nasce daí a Marcha da Liberdade. 

Como reivindicações principais a Marcha da Liberdade levanta a defesa pela regulamentação do uso de armas menos letais (bala de borracha, spray de pimenta, bomba de efeito moral, etc.) pela polícia em manifestações sociais; liberdade de organização e expressão; contra a repressão e a violência policial em qualquer âmbito da sociedade; contra o fascismo que tomou conta do estado de São Paulo (por parte do Estado, da polícia e de grupos neonazistas que têm aparecido com mais frequência). A partir dessas pautas centrais, a marcha abriu espaço para que cada indivíduo, organização, movimento, etc., incluísse suas reivindicações específicas. 
Por incrível que pareça, no entanto, proibiram também a liberdade. No final da tarde de sexta-feira, 27 de maio (um dia antes da Marcha da Liberdade), o Tribunal de Justiça de São Paulo soltou um mandado de segurança proibindo a realização da marcha, sob alegação de que seria uma Marcha da Maconha disfarçada. O processo era o mesmo da liminar que proibiu a manifestação pela legalização da erva, e o pedido para essa segunda proibição foi feito pelo mesmo promotor, Walter Tebet Filho. O desembargador que assinou o mandado dessa foi vez foi Paulo Antonio Rossi. Teodomiro Mendez, apesar de ser um dos juízes responsáveis pela análise do processo, não colocou seu nome ao final do despacho – nome esse um tanto quanto desgastado de umas semanas para cá, desde que a imprensa tornou pública sua condenação por espancamento em 1999, pela qual sua pena prescreveu.
Citando a famosa frase de Cecília Meireles, “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta / não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”, os organizadores da Marcha da Liberdade soltaram um comunicado reiterando que a concentração no MASP às 14h estava mantida: “Para a infelicidade dos promotores e desembargadores responsáveis pelo mandado de segurança, o movimento político que se constituiu em torno da Marcha da Liberdade é forte, e não silenciará sua revolta – cada vez mais justificada – frente ao cerceamento das liberdades por parte do poder público”. 
“Não perderemos tempo explicando que somos um movimento muito mais amplo do que a Marcha da Maconha, pois certamente não só toda a sociedade sabe disso como também o sabem os desembargadores que proíbem o evento na mais pura má fé. Não reivindicaremos a Constituição, a livre expressão nem a reunião que acordou a realização da Marcha com a Polícia Militar na quinta feira, com presença de diferentes setores do poder público”, afirmaram, terminando com uma certeza: “O autoritarismo será respondido. Estaremos nas ruas, que são nossas, de forma pacífica e firme. Governador Geraldo Alckmin e comando da PM, a possibilidade de evitar uma violência que não interessa a ninguém (talvez apenas aos desembargadores) está em suas mãos. O país todo estará pronto para cobrá-los”. 
De fato, o governador não tinha interesse que houvesse mais uma pancadaria em uma manifestação pacífica para deixá-lo mais uma vez em má situação, um ano antes das próximas eleições. Ao mesmo tempo, não poderia publicamente ir contra uma medida judicial. Cartazes como “A ditadura foi revelada”, “Libertar o direito de pensar”, “Marchar contra a repressão é um dever cívico”, “Nada pueden bombas donde sobra corazón” e “É proibido proibir” demonstraram que a proibição do TJ só alimentou a indignação dos que ocuparam as ruas para gritar basta. Duzentos e cinquenta policiais militares e um contingente da Tropa de Choque foram mobilizados para a Av. Paulista na manhã do dia 28. 

Na negociação entre os organizadores da Marcha da Liberdade e o Major Félix (responsável pela operação policial), foi mantido o acordo que havia sido feito três dias antes em reunião entre os mesmos. Os manifestantes marchariam ocupando as ruas, os policiais fariam a proteção e o trajeto estava mantido. “Que fique claro que não estamos desrespeitando nenhuma ordem judicial”, reiterou o Major algumas vezes. A argumentação da PM foi de que desde que não houvesse nenhum material fazendo alusão a drogas, o mandado de segurança estava sendo considerado. 
Diferente da semana passada, quando um acordo praticamente idêntico foi feito com a polícia minutos antes do choque avançar sobre a manifestação, a Marcha da Liberdade aconteceu com tranquilidade. Pequenos incidentes como quando integrantes do Movimento Passe Livre (MPL) estenderam uma grande faixa no Conjunto Nacional com os dizeres “o aumento do ônibus continua um roubo / Tribunal de Justiça faça justiça social já / Impugnação do aumento” e foram repreendidos pelos seguranças do prédio e quando dois punks agrediram o carro da Rede Globo e foram levados ao 4º DP foram os únicos casos de registro de algum tipo de tensão durante a manifestação.
Ao passar em frente ao cemitério da Consolação, os manifestantes emudeceram seus tambores e gritos de ordem, levantaram seus dedos e isqueiros e fizeram um minuto de silêncio em homenagem aos mortos pela violência policial, bem como a José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, lideranças do projeto agroextrativista em Nova Ipixuna (PA) assassinados dia 24 de maio, e Adelino Ramos, sobrevivente do Massacre de Corumbiara (RO) assassinado em uma emboscada dia 27 de maio. 
Os temas dos gritos de ordem passaram pela legalização das drogas, do aborto, repúdio ao veto do kit anti-homofobia, contra o código florestal, repúdio ao aumento do ônibus, respeito aos ciclistas, entre outros. Frases como “Kassab sem vergonha, o busão tá mais caro que a pamonha”, “O busão é uma droga, vamos fumar o busão”, “Direito ao próprio corpo, legalizar o aborto”, “Puta que pariu, 2011 tem censura no Brasil”, “Chega de polícia que mata”, “Dilma, que traição, trocou o kit pela corrupção”, “Sou veada e sou negra, sou comunista e maconheira”, “Vem pra rua, vem, contra a censura” foram algumas das que se ouviram no trajeto do MASP até a praça da República, no Centro. 

O movimento já marcou nova manifestação. O dia 18 de junho foi tirado como data nacional para marchas da liberdade. Em menos de 24h ela já começou a ser organizada em Brasília, Belém, Fortaleza, Belo Horizonte e Bauru. Em São Paulo, a próxima reunião organizativa da Marcha da Liberdade será domingo (5), às 15h no Centro Cultural São Paulo, e é aberta.

Ativista LGBTT é brutalmente espancado em Curitiba.

Leia o relato: 

'Nada como sentir na pele'. No último dia 21 de maio, sábado, a ativista do movimento LGBTT Dorothy Lavigne foi vítima de um violento ataque transfóbico. Leia abaixo o relato do ataque, mais um triste episódio de violência contra os LGBTT’s em nosso país.
Dorothy Lavigne, de Curitiba (PR)

• ‘Venho neste espaço denunciar algo muito triste e revoltante que ocorreu a minha pessoa e gostaria de fazer alguns apontamentos.

Resolvi escrever este artigo por vários motivos, mas o principal é o de tirar dúvidas a respeito de uma agressão homo/transfóbica por mim sofrida no ultimo sábado (21 de maio), quando retornava de uma festa de aniversário. E também por acreditar na enorme importância das pessoas que sofrem este tipo de violência tornarem-se portadoras do próprio grito de justiça. Na mídia em geral, geralmente este tipo de assunto é apresentado por terceiros, por maus jornalistas que têm o hábito de distorcer a realidade e pior, “coisificar” os indivíduos, como se fossemos coisas, meros pedaços de carne, usados como matéria para notícia. Espero não ser injusta com ninguém.

Peço desculpas por ter demorado mais de uma semana para publicar este relato, mas se demorei tanto foi pelo fato de que sofri uma terrível pressão psicológica, a qual foi capaz de fazer fugir as palavras. E por que trata-se de um tema que não se pode apresentar com exatidão, mesmo usando todas a palavras do mundo.

Voltava apressadamente por volta das 4 horas da manhã junto a alguns companheiros, de uma festa de aniversário que havia ocorrido no Largo da Ordem, centro histórico curitibano e espaço de socialização de jovens que não têm acesso as boates e clubes de classe média. Corríamos, pois um colega nosso se apresentava embriagado – nada demais, acredito - e nos dirigíamos a algum hospital ou procurávamos um modo de minimamente colocá-lo num ônibus e despachá-lo para casa em segurança. Foi nesse momento que, ao ver ao longe a aproximação de algumas pessoas, me adiantei para pedir socorro. Não sabia, mas quem vinha pela rua escura (estávamos na altura do Cemitério Municipal) era meu algoz. Tinha o sangue nos olhos, as faces retorcidas pelo ódio, o ímpeto de descontar sua ira contra um alvo mais fraco.

A cena que seguiu sinceramente gostaria de esquecer. Aos gritos de “vou bater num “viado”, começando por esse aqui”, veio na minha direção. Tentei fugir, mas ao virar as costas senti o peso do primeiro chute, covarde, nas costas, e meu corpo caindo na calçada. Neste momento, só pensei em seguir a Cartilha: defender a cabeça e os pontos vitais, enquanto gritava pedindo por socorro e clamando misericórdia por parte dos agressores (foram 3 pelo que me contaram, na ânsia por me defender só conseguia enxergar um deles), pedia perdão desesperadamente pelo crime que havia cometido - o crime de ser “viado”, ao mesmo tempo em que jurava minha improvável inocência - por ser “trans” trajava vestimentas do “sexo oposto”, “escandalosas”, como diria a minha mãe (afinal a culpa é sempre da vítima).

Dois dias depois, ainda sem rumo, transtornada pelo choque da violência e sem saber para onde me dirigir e o que fazer, fui a faculdade e lá encontrei com alguns amigos, que, indignados pela situação resolveram me acompanhar na via crucis burocrática. Passamos, em primeiro lugar, na PRAE (Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis) da UFPR, que não tomou rigorosamente providência nenhuma. Apesar de não estar devidamente matriculada neste semestre, o que foi pedido à instituição UFPR, não era nada além de um atendimento humanitário a alguém que precisava de um apoio simples. Como meus amigos também estão inscritos no que se convencionou como ‘segmento LGBT’, temíamos discriminação ou mesmo truculência por parte da polícia quando fôssemos à delegacia (o que de fato aconteceu). Mas até mesmo a isto a instituição se negou, alegando problemas burocráticos. 

Não teríamos conseguido sequer registrar o Boletim de Ocorrência se não fosse a presença do professor Pedro Bodê, cujo nome faço questão de incluir no meu relato, juntamente com meus sinceros aplausos e minhas Moções de Louvor. O atendente do 1º batalhão teve a falta de humanidade de se negar a nos atender e registrar o caso, alegando que não poderia fazê-lo a menos que reconhecesse o agressor. Ora, não é função da polícia investigar? Estamos pagando pesados impostos, para que as instituições façam “corpo-mole” ajudando na fuga desse tipo de criminoso, que, alias, faz o serviço sujo do sistema, tirando os ‘viados’ de circulação? Fico pensando nos inúmeros casos de travestis que, além de terem que se contentar com a imposição da prostituição como ganha-pão, ainda ficam a mercê de atentados deste tipo, surras com extintor, pauladas de desconhecidos, tiros, assassinatos. E sempre a culpa é delas que “aprontam”.

Em meio a vociferações, ameaças simbólicas e abusos de poder, só fomos atendidos na delegacia quando entrou o professor, junto com um advogado ligado á Comissão de Direitos Humanos. Ai só faltou o delegado nos oferecer cafezinho...

Ora, sabemos que estes casos costumam ficar impunes em nosso país. Mas na minha concepção, e posso estar muito enganada, ao me permitir fazer a queixa os policiais não estariam me prestando nenhum favor, pelo contrário, além de serem pagos com dinheiro do contribuinte (mal pagos, muitas vezes, façamos a justa ressalva) ainda teriam com meu relato a oportunidade de prender um provável futuro assassino ou genocida homofóbico, caso houvesse vontade política. Foi pensando nisso, que numa espécie de “dever cívico” de denunciar um maníaco perigoso (vai que, em vez de um ‘viado’ ele pegue o filho de um Policial Civil, por engano), que me dirigi à delegacia.

No outro dia fui com meus amigos e o advogado fazer o exame de Corpo de Delito. Mais uma vez tive que deslocar pessoas, pois tinha medo de ser discriminada, ou de ouvir comentários “carinhosos” como aquele que teve de ouvir um colega nosso, agredido a anos atrás, da boca de uma enfermeira- “agora, vê se aprende”; ou talvez até algo pior, já que no recinto do consultório o médico teria acesso ao meu corpo. Mas tudo transcorreu como de praxe. Minha suposta identidade de gênero em momento algum fora respeitada. “’nome social’, o que é isso, mesmo?”. Mediram com uma régua os meus ferimentos, com o mesmo grau de humanidade e com a mesma objetividade científica que se mede uma rua ou um pedaço de carne. Mas, como disse, fora apenas um exame de rotina. 

Só não entendo por que até agora nem o SUS nem o IML conseguiram me garantir acesso a um raio-X do nariz, que creio ter sido fraturado. E agora permitam voltar a minha subjetividade. Há uma semana que não consigo me olhar no espelho. Meu nariz torto é um símbolo, uma marca de que a “Milícia Heteronormativa” conseguiu fazer seu trabalho infame no meu corpo. 

Meu rosto é um aviso muito claro aos meus companheiros: “Cuidado, você pode ser o próximo”. Se o objetivo desse verdadeiro grupo de torturadores era me atingir psicologicamente e moralmente, acertaram em cheio. Tenho medo de sair à noite e até durante o dia. Deixei de freqüentar alguns eventos na faculdade, com medo de ser novamente agredida, ou me expor a alguma chacota por parte de algum colega homofóbico, politicamente correto o bastante para não destilar seu preconceito na minha frente. Cada hora do relógio, depois que o sol se põe é como um lembrete de que outro agressor, ou o mesmo, pode estar se aproximando. Ainda hoje pela manhã, quando voltava do supermercado, me vi correndo em direção a um grupo de estudantes, pois tive a sensação de estar sendo seguida por um indivíduo suspeito.

Vejo-me ainda mais revoltada com a situação, pois a menos de uma semana do caso de violência a que fui submetida, o Kit contra a Homofobia (que prefiro chamar de Kit anti-hipocrisia) fora cancelado pela Presidenta Dilma. Tenho longas criticas a fazer ao material, mas essa negativa me negaria, como profissional da educação, de explicar aos meus alunos assustados o porquê da violência e a crise que sua professora estaria sofrendo. É terrível e assustador vivermos em um país no qual bandidos armados e com certeza da impunidade, se vêm no direito de espancar outros cidadãos por motivo absolutamente torpe e não podemos sequer falar sobre a assunto por ser um “tabu” e as “criancinhas”, estudantes secundaristas criadas assistindo BBB (algumas delas serão futuramente espancadas sem saber o motivo), não podem discutir ‘homofobia’ em sala-de-aula.

Apóio e vejo a importância vital de se criar estatísticas cada vez mais apuradas sobre o campeão mundial de homofobia (Brasil), mas preciso desabafar. Uma coisa é ler números frios num pedaço de papel. Outra totalmente diferente é sentir o coturno pesado do agressor, no exato momento em que desfigura violentamente o nosso rosto. Uma coisa é ter acesso a trabalhos acadêmicos que tentam explicar a motivação homofóbica de tais crimes. Outra é sentir a dor das correntadas nos braços enquanto nos agachamos junto à parede, em posição fetal, implorando por socorro e torcendo e rezando para que os agressores não puxem facas ou revólveres para “terminar ali o serviço”.

Felizmente para mim, meus companheiros correram em meu auxilio, me levaram a um posto de gasolina, onde recebi os primeiro cuidados, onde meu rosto foi limpo, onde tentava desesperadamente limpar meus cabelos claros tingidos de vermelho pelo sangue que jorrava de um ferimento profundo na cabeça - a população LGBT é a única que não sabe como será recebida em casa depois de um evento deste tipo - e não queria deixar minha mãe preocupada. Muitos não têm essa sorte. Muitos não voltam para casa.

Espero que meu relato sirva de alerta as autoridades (mais um) você sabe onde está seu/sua filho(a)? Estaria ela ou ele procurando alguma alvo frágil para descontar sua raiva, ou sendo espancado covarde e inocentemente, simplesmente por ter um “comportamento” que alguns acham que tem o direito “divino” de punir? E espero que as autoridades façam alguma coisa para impedir que casos destes continuem acontecendo. Seja como for aprendi da pior (ou melhor) e mais dolorosa maneira a minha grande lição sobre o que é homo/lesbo/transfobia: literalmente na ‘base da porrada’. Espero que o caro leitor ou seus próximos não precisem passar pelo mesmo sofrimento. '