domingo, 6 de fevereiro de 2011

Polícia na Escola

Cátia Ronsani Castro*

A criação de um projeto que traz a Polícia para dentro da escola pública no Paraná, Projeto Patrulha Escolar, implementado pelo Governo Requião/SEED, no ano de 2004, revela-se uma das maiores, se não a maior contradição de um Governo que afirma pautar sua Política Educacional na construção de uma escola democrática e de uma educação emancipadora.

Por mais que os documentos oficiais e os calhamaços de textos elaborados pela SEED tentem convencer os educadores de que o caminho escolhido por essa Equipe, que atua no aparelho do Estado é o de uma educação crítica, transformadora, a prática política tem provado o contrário. A saída encontrada pelo Governo do Paraná para a solução dos conflitos existentes e estabelecidos dentro do ambiente escolar e nas suas proximidades é o uso do seu aparelho repressivo, a polícia, que é apresentada à educação com um caráter mais “humanizado”: patrulha escolar.

A política do Paraná caminha na contramão das conquistas históricas obtidas na proteção da criança e do adolescente. Quando precisamos na escola de melhores condições de trabalho para darmos ao aluno a atenção devida, (contratação de mais profissionais da educação, redução de aluno por turma, instalações físicas adequadas, tempo e espaços destinados às atividades educativas) o que recebemos é uma equipe de polícia para encaminhar as situações conflituosas. A política educacional do Estado defendida pelo Governador e seus representantes, não passa de discurso demagógico para camuflar o caráter de classe desse Estado que em essência é autoritário.

Preocupa-nos muito o que temos verificado e vivenciado no dia-a-dia da escola pública, onde a intervenção da Patrulha Escolar, tem sido cada vez mais freqüente para a resolução (ao seu modo) de problemas indisciplinares entre outros. A indisciplina tem deixado de ser uma questão pedagógica, a ser discutida pelo conjunto de educadores e passou a ser uma questão policial.

Entendemos a escola pública como parte do contexto social, não sendo ela uma ilha, isolada de todas as mazelas sociais, não sendo ela composta por crianças e adolescentes imunes aos desajustes sociais, não poderíamos esperar algo diferente do que se apresenta hoje: uma realidade de violência, rebeldia, indisciplina, desencontros, etc. Afinal, se não nas ruas, é na escola que encontramos as crianças e adolescentes marginalizadas, vítimas de todo o tipo de violência, abuso e exploração, que desde o berço sofrem um processo constante de deseducação. Fazer essa constatação, não significa que concordamos com essa realidade e tão pouco que aceitamos ela como natural.

Também não acreditamos que através da escola possamos apresentar uma solução aos conflitos da sociedade, ou reverter toda essa situação. Contudo, a escola enquanto espaço da luta de classes, da contradição, espaço que acreditamos ainda ser potencial para o processo educativo e humanizador é parte da resistência e enfrentamento à marginalização e criminalização da infância e da juventude, tão presente nos dias atuais.

Intrínseco à transmissão dos conteúdos científicos, está a possibilidade de construir e transmitir, por intermédio dos trabalhadores da escola (professores, funcionários, pedagogos e diretores) uma série de valores e ensinamentos que contribuem significativamente para a formação do educando enquanto sujeito histórico.

O papel educativo, dentro da escola, cabe a nós educadores - lembrando que isso é o que confere especificidade a nossa formação e a nossa atuação. Não estou afirmando, que vamos ou que temos condições de resolver todos os conflitos e as situações de indisciplina e violência, pois como apontei anteriormente, estas extrapolam o cotidiano escolar, mas apostar em alternativas que geram mais violência e que de maneira incisiva negam a escola como espaço educativo, é bastante preocupante e precisa ser revertido.

São nessas situações diárias, onde a nossa intervenção educacional é solicitada, que devemos fazer uma reflexão profunda e científica da nossa realidade, buscar compreender o problema da violência na sua raiz, para que a solução apresentada não seja superficial. O autoritarismo no ambiente escolar tem que ser uma prática negada e denunciada pelos educadores, para que dentro dos limites impostos pela sociedade de mercado, possamos construir práticas educativas e solidárias que apontem para a superação do atual sistema.

Acredito que por meio do nosso principal instrumento hoje,de luta e de construção de relações solidárias e humanizadoras – o Sindicato, devamos dar inicio a uma grande campanha contra a política de repreensão e repressão, de denúncia dos abusos que vem ocorrendo, exigir melhores condições de trabalho e ações de atendimento à infância, fortalecendo a nossa luta pela superação deste sistema.

(Louis Althusser define a polícia, entre outros, como Aparelho Repressivo do Estado).

* Cátia Ronsani Castro é funcionária do Colégio Estadual Barão do Rio Branco e Secretária Geral da APP-Sindicato/Núcleo Sindical de Foz do Iguaçu. O texto foi publicado originalmente no Informativo da APP-SINDICATO/Núcleo Sindical de Foz do Iguaçu "Educação em Luta".

O texto foi publicado originalmente no Informativo da APP-SINDICATO/Núcleo Sindical de Foz do Iguaçu "Educação em Luta".



sábado, 5 de fevereiro de 2011

Hoje é sábado, dia de bate papo!

Entrevista com Fernando Rabossi

Possui graduação em Ciências Antropológicas pela Universidade de Buenos Aires (1997), mestrado em Migrações Internacionais e Relações Étnicas pela Universidade de Estocolmo (1999) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004). Foi bolsista recém-doutor (PRODOC/CAPES) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2005-2007), Professor Visitante no PPGAS (Museu Nacional, UFRJ, 2007-2009), e se desempenha atualmente como Professor Adjunto no Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ. Coordena junto a Federico Neiburg (Museu Nacional), Diana Lima (IUPERJ) e Omar Ribeiro Thomaz (UNICAMP), o Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (www.cultura-economia.org). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia das Sociedades Complexas, atuando principalmente nos seguintes temas: mercados, fronteiras, migrações, globalização, etnografia, cultura. 

1 – Podemos considerá-lo como um individuo “trinacional”. Argentino, estudou e trabalha atualmente no Brasil e pesquisa a sociedade paraguaia. Como esta situação foi construída? Como o Brasil e o Paraguai entraram em sua vida?
Cheguei no Brasil em 1999 para fazer o doutorado. Estava morando na Suécia com minha mulher - que é uruguaia - e depois de três anos lá e com mestrados quase terminados, tínhamos que escolher onde seguir. Fazer o doutorado lá significava ficar pelo menos 5 anos mais e, na verdade, estávamos com vontade de voltar mais perto de nossas famílias. Eu sabia do doutorado em antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pois tinha um colega da graduação lá, tinha lido algumas coisas dos professores que achava boas e era um lugar onde, passando o exame de seleção, tinha a possibilidade de ter uma bolsa.
Tinha conhecido Rio de Janeiro em 1991 e havia gostado muito da cidade. Além disso, tinha muitos amigos com os quais havia trabalhado em uma exposição de pintura brasileira em Buenos Aires. Digamos, Brasil era um lugar que gostava e onde tinha possibilidades de continuar fazendo aquilo que tinha feito até então, que era antropologia. Observada desde Argentina e Suécia, a antropologia brasileira tinha um dinamismo muito legal e condições para poder fazer pesquisa.
Se Brasil foi uma escolha consciente, Paraguai foi uma escolha que foi se impondo. Alem da prova, a gente apresenta um projeto para ser aceito no doutorado. O projeto tinha um espaço definido de pesquisa - a região de confluência dos limites internacionais de Paraguai, Brasil e Argentina - e dois interesses sobrepostos: fazer uma etnografia da fronteira, e estudar a relação entre agendas globais de segurança e sua localização específica na região. No entanto, em setembro de 1999, realizei uma viagem exploratória (nunca tinha estado na região) e os interesses e as perguntas mudaram. Dada a centralidade do comércio entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu, tornou-se evidente que compreender esse movimento era o passo necessário para compreender a região e as diversas dinâmicas associadas a ela.
Foz do Iguaçu era o espaço no qual me sentia mais a vontade. Puerto Iguaçu e Ciudad del Este apareciam como espaços mais estranhos. A primeira por uma questão de dimensão e por um contexto bem singular (com a convertibilidade, Puerto Iguazú parecia uma cidade fantasma, tal como alguns iguazuenses a caracterizavam, lembremos que em 1999 quase todas as lojas do centro estavam fechadas). E Ciudad del Este era algo muito estranho para mim pelas experiências que eu tinha tido, pela combinação de origens da sua população e pela singular sensação de chegar a um lugar no qual as pessoas, em teoria, falavam a mesma língua que eu falo – espanhol - e me topar com uma dificuldade de comunicação que para mim era um enigma. Entender esse enigma foi um pouco o desafio, que depois foi se explicando não somente pelo guarani como língua materna de muitos dos habitantes da cidade, mas também pela experiência rural de muitos deles (temos que lembrar que Ciudad del Este é uma cidade muito jovem e que muitas das pessoas acima de 40 anos são migrantes internos de origem rural). Algo que também caracteriza os tempos nas interações e os códigos de comunicação. A segunda vez que voltei (um mês em 2000) fiquei grande para do tempo em Ciudad del Este, primeiro no centro e depois em Bairro Obrero. E em 2001 quando passei mais de oito meses na região, me instalei em Bairro Obrero e depois foi morar em San Rafael com a família de Gregorio Villalba, um vendedor de rua que tinha conhecido ao longo da pesquisa.
A pesquisa me serviu para conhecer um mundo que pouco conhecia que é o Paraguai, um pais interessantíssimo com pessoas maravilhosas, sobre o qual continuo a apreender e tento entender. Algo similar me aconteceu com Chile e os chilenos, com os quais trabalhei no meu mestrado na Suécia. A minha relação com Brasil é de outra natureza. Vivo aqui. Ensino na universidade pública, o que me coloca um compromisso intrínseco com a educação brasileira e com os estudantes e os colegas com os que trabalho. Tenho filhos brasileiros e compartilho as preocupações, as alegrias e as tristezas desta terra faz mais de 10 anos. Nada disso modifica o fato de eu ter nascido em Buenos Aires e ter morado na Argentina até os 25 anos.
Se me considero um individuo trinacional? Eu pensaria a questão em termos de identidade e em termos de apostas. Em termos de identidade, pois é... sou argentino. Quero que Argentina ganhe no futebol. Mas me alegra a alegria do Brasil, do Uruguai e do Paraguai quando ganham; sinceramente. A paixão por Boca Juniors, de qualquer forma, é incontornável e irredutível. Em termos de apostas, ou de como pensamos o mundo ou si se quer, em termos políticos, os “interesses nacionais” – argentinos (por nascimento) ou brasileiros (por opção) – não estão por cima de outros interesses. Principalmente porque os interesses “nacionais” ocultam uma diversidade de interesses de distintos setores que, quando analisados além das etiquetas nacionais, nos permitem ter posicionamentos mais justos e nuançados. Digamos, somo sujeitos nacionais: temos um passaporte, uma identidade que nos é dada no momento de nascer e que tem uma serie de conseqüências – poder ou não trabalhar em alguns lugares, nos sujeitar às leis como nacionais ou estrangeiros, esperar que sejamos de determinada forma por ter nascido onde nascemos. A matriz nacional continua sendo significativa nas nossas vidas. Contudo, tendo a pensar os meus posicionamentos políticos independentes dessa matriz. Algo que foi parte dos imaginários internacionalistas de outras épocas e voltou a ter certa força. Em termos de apostas, antes que tri-nacional, diria pós-nacional.

2 – A pesquisa que resultou no livro “En las calles de Ciudad del Este” envolveu um processo de aproximação muito grande com os trabalhadores das ruas de Ciudad del Este. Como isso ocorreu? Como se deu o processo de familiarização e estranhamento?
O primeiro mês de trabalho de campo (agosto de 1999) me serviu para conhecer a região e para decidir focar a pesquisa no comércio de fronteira. Em setembro de 2000 passei outro mês, agora dedicado a mapear mais sistematicamente esse comércio: os bairros - Vila Portes e Jardim Jupira, o microcentro em Ciudad del Este, Porto Meira e o centro de Puerto Iguazú -, o tipo de atividades envolvidas – vendas, transportes, compras, depósitos, seguranças, hotéis - e os atores envolvidos em elas – quem trabalha em que, como o fazem, estão associados?, etc. No meio do doutorado a gente faz um exame que consiste em apresentar o trabalho feito até então (o exame de qualificação). Eu o fiz na volta do campo em 2000. Me lembro que um dos membros da banca – Marcio Goldman, um excelente professor – depois de ter lido o que apresentei, me pergunto: “Muito interessante, mas você vai se colar em quem?” Esta pergunta de Marcio exprime, de fato, uma questão central da antropologia que é a tentativa de dar conta do mundo sobre o qual pesquisamos a partir da perspectiva das pessoas que fazem esse mundo. Claro que, em um espaço da complexidade da fronteira – e simplesmente considerando o comércio que circula através da Ponte da Amizade – há de fato inúmeros pontos de vista. Mas esses pontos de vista são constituídos a partir de que? De experiências comuns, claro. Mas quais as experiências significativas para escolher um recorte? Nacionalidade? Categoria laboral? Pertencimentos institucionais? Religião? Língua? Trajetórias rurais ou urbanas? Gênero? Geração? Cada recorte é significativo para determinadas perguntas. Por de pronto, eu estava interessado em entender a comércio de forma mais geral. Mas quando voltei em 2001, à pergunta sobre a quem ia me colar me perseguia. Eu ia fazendo entrevistas – com os membros das associações de cambistas, mototaxistas, taxistas, transporte alternativo, associações e câmaras comerciais, gerentes de galerias, donos de comércio, funcionários da prefeitura de Ciudad del Este, de Foz, de Puerto Iguazú. Compartilhava o final do dia com alguns sacoleiros e laranjas no mercadinho de Vila Portes, me sentava na rua ou em alguns copetines del centro de Ciudad del Este observando o ir e vir. Coletava informação e material documental – de fato há bastante, meio disperso, mas está lá. Mas a pergunta de Marcio voltava na minha cabeça, “você vai se colar em quem?”.
Aí chegou a hora de conhecer como se fazia para alguém se instalar na rua para vender (engraçado que, contando os meses dos anos anteriores, já tinha estado 4 (quatro) meses na região e ainda não tinha se me cruzado a pergunta pela cabeça). Aí comecei a perguntar e assim cheguei ao presidente de uma associação de mesiteros – tal como são chamados os vendedores de rua em Paraguai. Marquei a entrevista, nos sentamos em um local de comida em uma galeria e fiz minha entrevista, com as perguntas gerais sobre o fazer dos mesiteros e sobre a sua vida. Mas depois de apagar o gravador, ficamos conversando sobre a minha pesquisa e sobre o desejo de conhecer aquele espaço desde o cotidiano das pessoas e não desde as imagens estereotipada da mídia ou daqueles que, em teoria, sabem – sejam acadêmicos, especialistas ou políticos. Aí foi que Gregório me falou, “Quer conhecer o que se faz no dia-a-dia? Vem cá se sentar conosco.” E assim foi. Comecei a ir todos os dias lá, na Avenida San Blas, na entrada da Galeria Santo Domingo. Me enturmei com os mesiteros de lá – com alguns, claro - e passei cotidianamente a estar por lá, acompanhando o trabalho diário, as vendas, as relações, as amizades, os jogos, os momentos de relax e os momentos de tensão, os dias de muita atividade e os dias de nada. Claro que continuei com entrevistas fora da rua, acompanhei alguns eventos – o fechamento da ponte, a expulsão dos brasileiros dos comércios, o 11 de setembro, o movimento Paz sem Fronteira. Mas tudo isso agora era feito a partir de um dia-a-dia que era o daqueles que vendiam na rua. E na verdade foi isso que abriu a minha compreensão daquele espaço – ou pelo menos, aquela compreensão que começou a abrir-se para mim.
Depois de um tempo recebi o convite de Gregório – aquele presidente de uma das associações de mesiteros – para morar com a sua família no bairro San Rafael, ao lado do microcentro. Eles estavam preocupados com minha segurança pois morava em Barrio Obrero e todos os dias tinha que atravessar o Mercado do Abasto e para eles era um local complicado. Claro que São Rafael não tinha um prestigio melhor. Mas na verdade se revelou um local muito interessante para morar que, assim como San Agustín e San Antonio, os outros bairros ao norte do microcentro, está claramente articulado com a vida comercial da cidade. A família de Gregório se tornou a minha família em Ciudad del Este, e a generosidade e a disponibilidade dele e de muitos outros mesiteros, vizinhos e colegas da Avenida San Blas a me responder e ensinar sobre aquele mundo, me permitiu entender muitas coisas. Sobre a importância das migrações internas na conformação da cidade, a origem rural, a possibilidade de manter formas de socialização e comunicação singulares, os papeis de gênero, os imperativos geracionais, e principalmente aquilo que permitiu o comércio em termos de vidas possíveis e como isso estava em crise no período que eu esteve lá, e que se refletia em uma serie de tensões e conflitos que surgiam aqui e acolá. Em 2006, quando voltei, tomei real noção da crise que estavam atravessando em 2000 e 2001.
Assim pude conhecer mais por dentro e desde um ponto de vista particular o crescimento, expansão e crise do comercio de Ciudad del Este, as inter-relações entre os diferentes grupos que estão e compartem o dia-a-dia do mercado. Algo que não significa que aquilo que aparece no livro seja “a realidade” dos mesiteros nem de Ciudad del Este. Ano passado, que houve um encontro na UNIOESTE sobre trabalhos na fronteira, aproveite para visitar o pessoal. Me encontrei com um deles, Noni. Falamos das novidades de lá, sobre a filmagem de Miami Vice, e ele colocou a questão dos retratos da fronteira nos seguintes termos: “O que acontece é que as pessoas inventam seu próprio filme sobre como são as coisas cá e pensam que é assim mesmo.” Mais tarde, quando perguntei se tinha lido a tese –tinha levado algumas copias em 2006 para deixar com alguns mesiteros -, ele me respondeu com os mesmos termos: “Está bem, mas por momentos você também inventa seu próprio filme.” Ainda estou precisando voltar para me sentar a discutir os “meus filmes”. A questão que acho crucial, contudo, é que o conhecimento ganho a partir de cotidianidade das pessoas tem uma densidade que vale a pena de ser explorada. Mas ter consciência do ponto de vista que a gente assume para descrever o mundo é fundamental. O problema com muitos retratos da fronteira é que eles assumem o ponto de vista “da verdade”, quando qualquer um que conhece aquele espaço sabe que é um espaço com uma complexidade imensa. A saída não é ficar paralisados ou satisfeitos reconhecendo a complexidade, mas tentar dar conta dela. E como em toda pesquisa, o principio mais importante é a sinceridade. Não como uma questão moral, mas como uma questão metodológica (tal como assinalava um velho antropólogo, Bronislaw Malinowski. No final de conta, a partir de que interações construímos o nosso conhecimento? Levantando que pontos de vistas?  
Em certa medida, a minha tese – e o livro, que é um derivado dela – está a metade de caminho entre explorar Ciudad del Este a partir do mundo dos mesiteros e tentar dar conta do movimento comercial através da ponte, como se fosse olhado desde um satélite. De fato, essa foi a critica de Marcio Goldman na minha defesa: ele queria mais do primeiro. Mas na primeira metade da década de 2000, se tinha muita denuncia sobre a denominada Tríplice Fronteira, mas pouca informação histórica, social ou cultural. O trabalho tentou conciliar esses dois interesses. Por um lado, criar outras bases para a construção de conhecimento sobre a região que aquelas viabilizadas na mídia e pelos serviços de inteligência (que, como bem assinalava em 2001 Wagner, um analista de inteligência, a maior parte da informação produzida pelos serviços de todos os paises que atuavam na região era tirada dos jornais). Por outro lado, o interesse de retratar o mundo desde a perspectivas de um dos seus atores.
Aconteceu com os mesiteros o que está acontecendo comigo nessa entrevista: uma vez que você pergunta a pessoas que nem sempre foram chamadas a apresentar seu mundo, elas tem uma vida para contar. Que é a mesma coisa que as perguntas de vocês: ninguém antes as tinha feito e de fato, poderia continuar escrevendo e escrevendo. Mas como ninguém vai ter vontade de continuar lendo estas linhas, vou tentar responder as próximas perguntas um pouco mais sumariamente.

3 – Podemos afirmar que o processo de construção das identidades ocorre através de reconhecimento do “outro”?
Sim, mas com uma aclaração. Há duas formas de pensar a construção das identidades sociais. Uma as considera como algo dado – haveria uma essência na constituição dos grupos. Outra as considera como o produto das interações entre os grupos. Questão que de fato atravessa como a filosofia e as ciências humanas têm pensado a identidade em geral. Em certa medida, cada uma dessas posições exprime perguntas diferentes, ambas validas mas que correspondem ao interesse daquilo que queremos enxergar. As teorias do reconhecimento ou das interações tem problemas em dar conta dos processos de sedimentação das propriedades que são assumidas como próprias e que são predicados nos outros e que vão determinar a forma em que os reconhecimentos são processados. As teorias mais centradas nas formas dos grupos – essencialistas, culturalistas ou como as chamemos – tem problemas em processar como as interações vão modificando as formas de estar no mundo de um e de outros. Algo similar ao que acontece nas ciências sociais na hora de analisar as continuidades ou as mudanças: antes que uma propriedade do mundo, as continuidades e as mudanças são o viés que colocamos nas nossas perguntas. Estamos interessados em olhar aquilo que está mudando ou aquilo que se mantém? As duas questões são validas, mas correspondem a diferentes agendas de pesquisa e a diferentes ênfases nas propriedades do mundo social que queremos enfatizar.  

4 – Como este processo se desenvolve em um contexto de fronteiras, como no caso de Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú? É possível pensar em uma cultura de fronteira, algo original, nascido das diferentes interações étnicas que ocorrem na região?
Sem dúvida há formas singulares de experimentar o fluxo da vida social no contexto de fronteiras, diferentes daquelas que tem um paulista que nunca saiu da cidade, por exemplo. Porém, aqui vale a pena ampliar a nossa compreensão de quem são os “outros”. No contexto de fronteiras, os outros significativos parecem ser exclusivamente os “outros” nacionais do outro lado da fronteira. Que no caso de lá, ainda temos a complexidade de origens dos grupos migrantes presentes na região. Sem dúvida que isso produz um tipo de sociedade singular, contudo para entender Ciudad del Este ou Foz do Iguaçu, há outros significativos tão importantes na conformação das singularidades culturais e sociais da região quanto as origens nacionais. A experiência em Ciudad del Este para mim foi reveladora nesse sentido: as origens rurais ou urbanas da população, a pluralidade de origens interna, os processos migratórios das populações locais (Argentina está muito presente em Ciudad del Este pela experiência migratória dos paraguaios lá – o maior grupo imigrante da Argentina), as estruturas de gênero, de classe, raciais...  A minha sensação a partir do período que morei lá é que a forma em que é experimentada a vida social continua estando delimitada pelas fronteiras nacionais, a pesar dos múltiplos nexos e inclusive, a pesar de muitas pessoas desenvolverem parte da sua vida quotidiana – trabalho, estudos – do outro lado da fronteira.

5 – Para finalizar, em que está trabalhando atualmente? O que está estudando?
Estou envolvido com uma equipe em uma pesquisa sobre vendedores de rua aqui no Rio de Janeiro, considerando os processos de transformação que está sofrendo a cidade.
E continuo a escrever sobre lá. Atualmente sobre uma coisa que ficou dando voltas na minha cabeça desde que sai, que é sobre a pluralidade musical de Ciudad del Este. E também sobre a imagem do Paraguai no Brasil. 



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Agenda Cultural Alternativa

Rock do Casulo 
Local: Casulo Rock Bar - Avenida das Cataratas - próximo ao hotel Torrance
Data: 04/02
Horário: 23h
Telefone: (45) 99198734

Cine Biblioteca do SESC 
Data: todas as terças e quintas 
Filme: O batedor de carteiras Pickpocket
Data: 08/02
Horário: 19h 
Valor: entrada gratuita
Local: Biblioteca do Sesc Foz
Mais informações: (45) 3576-1311

Feirinha da JK
Data: domingo
Local: Avenida JK, em frente à agência da Caixa Econômica Federal
Horário: 8h às 12h
Entrada: franca

Cine Catarastas
Caça às Bruxas
Gênero: Ação/Suspense
Classificação: 14 Anos
Legenda: Legendado
Duração: 1h36min
Horários: 15:00h, 17:10h, 19:20h e 21:30h.

O Turista
Gênero: Ação/Drama
Classificação: 12 Anos
Legenda: Legendado
Duração: 1h43min
Horários: 19:30h e 21:40h

Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família
Gênero: Comédia
Classificação: 12 Anos
Legenda: Legendado
Duração: 1h38min
Horários: 15:10h e 17:20h

Enrolados (3D)
Gênero: Animação/Comédia
Classificação: Livre
Legenda: Dublado
Duração: 1h33min
Horários: 14:00h e 19:40h

Zé Colméia - O Filme (3D)
Gênero: Animação/Família
Classificação: Livre
Legenda: Dublado
Duração: 1h20min
Horários: 16:10h, 18:00h e 21:50h

Cisne Negro
Gênero: Drama/Suspense
Classificação: 16 Anos
Legendada: Legendado
Duração: 1h52min
Horários: 14:20h, 16:40h, 19:00h e 21:20h
  
Cine Boulevard

Genero: Animação/Comédia
Classificação: Livre
Legenda: Dublado
Duração: 1h42min
Horário: 18:00h

Genero: Comédia Romântica/Musical
Classificação: 12 Anos
Legenda: Nacional
Duração: 1h28min
Horários: Diariamente: 20:10h e 22:10h

Genero: Comédia
Classificação: 14 Anos
Legenda: Nacional
Duração: 1h54min
Horários: Segunda, Quarta, Quinta e Sexta: 19:45h e 22:15h / Terça, Sábado e Domingo: 17:15h, 19:45h, 22:15h

Genero: Drama/Suspense
Classificação: 12 Anos
Legenda: Legendado
Duração: 2h09min
Horários: Diariamente: 19:30h e 22:00h.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

VULNERABILIDADE SOCIAL. QUEM SE “ENCAIXA” NOS CRITÉRIOS?


            Trazemos hoje a reflexão sobre um tema complexo e aparentemente comum, ainda mais quando pensamos a vulnerabilidade social vinculada apenas a condições de pobreza. Sem embargo, afirmamos que a vulnerabilidade vai além do fator econômico, envolvendo as dificuldades de acesso aos serviços sociais públicos e aos espaços de participação popular, além da impossibilidade de usufruir igualmente da riqueza matéria e imaterial socialmente produzida.
Muitos serviços públicos não estão pautados na prevenção das situações de risco nos quais os indivíduos, famílias e a comunidade em geral ficam expostas. De maneira geral, eles são presos a uma lógica funcionalista de retirar e tratar o problema para depois devolvê-lo “recuperado” a sociedade, como é o caso do sistema de proteção social acerca das crianças e adolescentes em conflito com a lei, condições de abuso e exploração sexual, casos de agressão e violência contra mulheres e idosos, dentre tantas outras expressões da “questão social”.
Todavia, não se trata de dizer que o sistema de proteção social seja totalmente ineficaz, porém geralmente o acesso a ele é burocrático e com medidas paliativas, que quase sempre não funcionam.
            É preciso olhar além do aparente e visualizar que a vulnerabilidade social, está para além dos aspectos financeiros (ausência da renda), trata-se de uma somatória de problemas sociais enfrentados pela “massa” da população historicamente deixada em segundo plano pelo corpo do Estado, pois como afirma Iamamoto (1998), “enquanto a produção social e o trabalho são coletivos, a apropriação de seus frutos fica monopolizada por uma parte da sociedade”.
            A exclusão social em seus diversos aspectos esta para além da natureza puramente econômica (alimentação, moradia, emprego, consumo) e envolve a carência de direitos, de possibilidades, esperanças, exclusão da participação efetiva da população na coisa pública e da dimensão política no cerne das relações sociais.
            Não pode ser negada a importância da garantia das legislações e a intervenção de políticas publicas, porém estas para serem acessadas pelos usuários precisam atender a critérios de pobreza pré-estabelecidos, como, por exemplo, os programas de transferência de renda e as estratégias higienistas sob novas roupagens inseridas nos programas sociais.
            Nota-se o precário sistema de proteção social e a privatização dos serviços públicos que afetam profundamente as condições de vida da população, quando o Estado se mostra cada dia mais: “mínimo” para atenção social e “máximo” para a economia, responsabilizado a sociedade civil por sanar as ausências e problemas enfrentados em um discurso de solidariedade, caridade e ajuda mutua.
Neste sentido, observa-se a ineficiência das políticas de proteção social e os processos pelos quais se produzem desigualdades sociais, deixando explicito as estratégias de sobrevivência no âmbito privado por parcela da população esquecida e cansada de esperar por respostas dos governantes e das elites, ao invés de mobilizações públicas de movimentos sociais pela luta e efetivação de seus direitos.
O grande desafio é poder analisar a totalidade dos condicionantes da pobreza e da vulnerabilidade para além do fator econômico e puramente quantitativo, contribuindo para a construção e efetivação de políticas públicas que incluam e não excluam a população, atendendo a população como um todo, vislumbrando a emancipação humana e a construção da cidadania de maneira justa, igualitária e equânime, pautados nos direitos a liberdade de todos os cidadãos como sujeitos de direitos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ato contra o Transporte Público de Foz do Iguaçu

            O Movimento Fronteira Zero juntamente com outras instituições de Foz do Iguaçu vem lutando por um transporte público mais adequado e de qualidade para a comunidade Iguaçuense. Com isso o Fronteira Zero faz um apelo para que todos (estudantes, trabalhadores, usuários e não usuários do transporte urbano público) compareçam amanhã quinta-feira [03/02/11] às 8hrs no Terminal de Transporte Urbano, para participar de uma manifestação em prol de um transporte público com mais qualidade e eficiência para toda a população.


Coletivo pede a libertação imediata de todos os presos e presas políticas

Karol Assunção

            Uma campanha desenvolvida pelo Coletivo de Ex-presas políticas ‘Cármen Soler’ está pedindo o fim das prisões políticas no Paraguai. As integrantes da organização solicitam ao presidente Fernando Lugo que liberte os/as presos/as políticos e expulse do país a embaixadora dos Estados Unidos, Liliana Ayalde, como forma de impedir ingerências sobre os assuntos internos do Paraguai.

            "Todos por um 2011 sem presos políticos no Paraguai” exige de imediato a libertação de Francisca Andino, Cármen Villalba, Juana Bernal, Sonia Muñoz, Rumilda Gimenez, Mary Bracho, Graciela Samaniego, Sonia Espinola Coronel Olmedo e Estela Agüero Meza, todas presas políticas detidas no cárcere de mulheres ‘Bom Pastor’.

            O coletivo de mulheres assegura que muitos dos presos e presas políticas foram acusados injustamente de pertencer ao Exército do Povo Paraguaio (EPP), assim como acusados de crimes graves como sequestro seguido de morte. "Denunciamos que estas falsas acusações são desenhadas na embaixada dos EUA e acatadas servilmente pelos patrões no poder”. Por esse motivo, um dos objetivos da campanha é conseguir a ruptura das relações com o governo estadunidense.

            No país, seis dirigentes campesinos presos políticos também reivindicam sua libertação e culpam o Estado paraguaio de mantê-los presos apenas por sua opção política e militância junto ao campesinado pobre. Agustín Acosta, Roque Rodríguez, Basiliano Cardozo, Arístides Vera, Simeón Bordón e Gustavo Lezcano foram extraditados da Argentina há dois anos e levados para a prisão de Tacumbú. Os campesinos seguem encarcerados há quase cinco anos.

            Em carta enviada à opinião pública paraguaia no último mês de dezembro os presos políticos denunciaram a prática da corrupção entre as autoridades judiciais do país e demandaram aos organismos de direitos humanos de todos os países que intercedam pela libertação dos seis junto à Corte Suprema de Justiça do Paraguai.

            Para aderir à campanha "Todos por um 2011 sem presos políticos no Paraguai” escreva para o endereço de e-mail: comisionparaguay@yahoo.com.ar.

Informe DH

            Amanhã, o Paraguai apresentará a situação dos direitos humanos no país para o grupo de trabalho do Exame Periódico Universal do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. A apresentação do relatório será feita em Genebra, na Suíça, e servirá para que o país seja avaliado segundo os parâmetros estabelecidos pela Organização. Após constatar se o país vem cumprindo suas obrigações inseridas na Carta das Nações Unidas, na Declaração dos Direitos Humanos e nos instrumentos de DH que o país é parte, caso sejam encontradas deficiências o Estado paraguaio receberá recomendações que serão examinadas futuramente.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Trabalho Escravo no Brasil: uma história não superada


          O dia 28 de janeiro corresponde ao dia nacional de combate ao trabalho escravo no Brasil. O objetivo da data é divulgar e denunciar práticas de exploração do trabalho consideradas rudimentares e degradantes, que ainda existem no país visando a maximização de lucros por parte de alguns empregadores.  Segundo a Comissão Pastoral da Terra ainda existem no Brasil aproximadamente 25 mil trabalhadores e trabalhadoras com os direitos violados, atuando de forma escravizada.

            Como divulgamos no blog e no site do Fronteira Zero, na semana passada o Ministério do Trabalho e Emprego encontrou 23 pessoas em situação análoga à escravidão atuando em uma fazendo de fumo no município de Rio Negrinho, 250 km de Florianópolis/SC. Entre as pessoas estavam 11 crianças e adolescentes, com idades entre 12 e 15 anos. No entanto, isso não é um caso isolado.

            Observa-se, por exemplo, que mais de 7 mil casos de trabalhadores em condições análogas à escravidão foram registrados no estado do Rio de Janeiro nos últimos dez anos. A maior parte estava no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, onde se concentra a lavoura canavieira (Fonte: www.mst.org.br).

            No início deste ano, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Minas Gerais libertou 131 trabalhadores que eram escravizados em lavouras de feijão. As autuações ocorreram nas fazendas São Miguel e Gado Bravo, em Unaí e Buriti. Nenhum dos libertados tinha carteira assinada e os empregadores não concediam descanso semanal aos domingos. Os trabalhadores atuavam por dez horas diárias, sem tempo de repouso ou alimentação.

            A cidade de Unaí já é conhecida por casos similares. No ano de 2004, três auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) foram assassinados numa emboscada enquanto realizavam trabalhos de fiscalização nas fazendas da região (Fonte: www.mst.org.br).

            Em novembro do ano passado, a Polícia Federal Rodoviária desarticulou uma rede que mantia 49 trabalhadores que atuavam em condições análogas à escravidão na cidade de Cambuí (MG). Entre os libertos, havia sete adolescentes e 13 mulheres responsáveis pelo cuidado de 400 mil pés de morango, em duas propriedades pertencentes à Jossiel Virgínio Pimentel (Fonte: www.mst.org.br).

            No Pará, entre os anos de 1995 a 2010, foram registradas 1.113 denúncias, atingindo 67 dos 144 municípios do Estado. As primeiras denúncias de formas contemporâneas da escravidão no Brasil foram feitas em 1971. Sete anos depois, a CPT denunciou a fazenda Vale do Rio Cristalino, então pertencente à montadora de veículos Volkswagen, no sul do Pará. O depoimento de peões que conseguiram fugir a pé da propriedade deu visibilidade internacional ao problema.

            O Pará continua sendo um dos Estados que registra grande número de casos. No ano passado, foram 63 denúncias fiscalizadas e 562 pessoas foram resgatadas de situações de trabalho escravo no estado. Em 2008, foram 811 pessoas. Entre 2003 e 2010, as principais ocorrências foram registradas em São Félix do Xingu, Marabá, Rondon do Pará, Dom Eliseu e Pacajá. (Fonte: http://www.diariodopara.com.br/N-126269-TRABALHO+ESCRAVO+AINDA+E+REAL+NO+PARA.html).

            O Piauí corresponde ao sexto estado com maior número de trabalhadores explorados no país, apenas no ano de 2010 foram registrado 600 trabalhadores que estavam sendo explorados em condições sub humanas. Os municípios com maior índice de trabalhadores em situação de escravidão no neste estado da federação são: Teresina, Piripiri, Aroazes, Antonio Almeida, Uruçuí, Alvorada do Gurgueia, Morro Cabeça no Tempo, Monte Alegre do Piauí, Parnaguá e Corrente (Fonte: http://www.cidadeverde.com/40-mil-trabalhadores-do-pi-estao-em-situacao-de-escravidao-veja-mapa-72169).

            Recentemente o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou em seu site o Cadastro de Empregadores flagrados explorando mão-de-obra escrava no país. Conhecido como "lista suja", o documento atualizado inclui 88 novos empregadores. Trata-se da maior inclusão de infratores desde o início do Cadastro. A partir desta atualização, a lista suja passa a conter 220 infratores, entre pessoas físicas e jurídicas, não computados os casos de exclusão por força de decisão judicial.

            Também foram excluídos permanentemente 14 empregadores que cumpriram os requisitos exigidos pela Portaria n° 540/2004, e um temporariamente, por força de decisão judicial. As principais causas de manutenção do nome no Cadastro são a não quitação das multas impostas, a reincidência na prática do ilícito e/ou em razão dos efeitos de ações em trâmite no Poder Judiciário (Fonte: http://www.canalrural.com.br).

            Na lista divulgada constam empregadores dos diferentes estados brasileiros, inclusive do Paraná. Ela pode ser acessada integralmente no link (Fonte: http://www.mte.gov.br/trab_escravo/lista_suja.pdf). Embora a exploração do trabalho escravo esteja sendo cada vez mais divulgada e combatida, existem casos camuflados espalhados por todo território nacional. A utilização da mão de obra migrante e infantil é constante nos grandes centros e nas cidades de fronteira respectivamente.

            Tal problema torna-se latente quando existe a necessidade de manutenção e de ampliação dos padrões de acumulação de capital em um momento de crise do modelo econômico existente. Para garantir a riqueza amplia-se a exploração. A informalidade soma-se aos trabalhos regulares e precarizados, com baixos salários e alta intensidade de esforço, e também a inúmeras outras formas de prestação de serviço escondidas atrás dos contratos de comissão, fomentando formas mais tênues de exploração, mas nem por isso menos questionável.

            Inseridos em mundo cheio de informações, com as facilidades de comunicação do mundo contemporâneo, uma ação simples e eficaz contra os empregadores que enriquecem através da exploração do trabalho escravo ou similar a escravidão é o boicote aos seus produtos. Informem-se sobre a origem da madeira utilizada nos móveis, a origem dos produtos agropecuários consumidos e sobre os produtos industriais adquiridos. Atrás de cada produto que compramos existe uma história, lembre-se dela antes de levar para casa mercadorias elaboradas através do sofrimento de homens e mulheres que, por necessidade, se submetem a formas desumanas de trabalho.